Vigília – Yehudi Hollander-Pappi
LUCAS MILANO @ YHP
Vigília
Abertura
Existem estados que a mente atravessa sem jamais conseguir nomear. Zonas de transição em que a consciência aterrada se dissipa, dando passagem a outra coisa, cuja natureza indescritível a torna arredia às capacidades da linguagem. Nesse limiar indizível, surgem imagens que não se originam da memória, tampouco são fruto da invenção premeditada. Mais parecem imagens intuídas — captadas como sinais de uma antena mental sintonizada numa frequência que o cotidiano normalmente encobre. Visões sem origem declarada, sem identidade reconhecível. Presenças sem nome.
É essa experiência que a pintura de Lucas Milano evoca. Suas composições não trazem representações do mundo nem oferecem confissões pessoais. Livres de função descritiva ou intenção narrativa, essas aparições carregam uma não-referencialidade intrínseca. Luz, textura e escalas cromáticas criam princípios espaciais e proto-corpos no limite da visibilidade. O artista opera com camadas sucessivas de velatura, depositando a tinta em estratos translúcidos que deixam entrever a camada anterior, de modo que a profundidade insinua-se menos por uma ilusão espacial do que pelo acúmulo material no tempo. Ainda assim, tudo se manifesta numa superfície quase membranosa, fina e frágil, cuja pulsação anímica impede que a forma se feche em definitivo. Enquanto esse tremor convoca o olhar num misto de assombro e encantamento, o que se vê é apenas o vestígio rarefeito, quase vaporoso, algo prestes a se materializar ou prestes a se desfazer. Sob a tensão de um mistério magnético, emergem situações atmosféricas e condições emocionais que não poderiam ser transmitidas de outro modo, guardadas como em um enigma visual.
Vigília I
Uma esfera espectral fulgura num espaço que oscila do violáceo ao cinza antracite. Um sorvedouro de cores ácidas rompe na parte inferior como o olho da terra: sua fundura abissal faz contraponto à claridade apoteótica que emana do alto, criando entre esses dois pólos um balanço fatal. A luz nasce gerando a própria matéria, numa irradiação que submete o entorno à força de sua gravidade. A atmosfera remete a uma era planetária passada, talvez do tempo em que halobactérias tingiam de roxo a superfície terrestre, ou à topografia de outro mundo.
As marcas do pincel persistem sob as velaturas, expondo o processo de construção da imagem mesmo quando ela parece se dissolver. Cada gesto permanece vivo entre as incontáveis camadas de tinta, preservado como um rastro energético que atravessa a espessura da pintura. Enquanto isso, a dialética cósmica entre o núcleo incandescente e a escuridão que o cerca nos coloca diante de extremos que se tornam indistinguíveis e intercambiáveis. Podemos testemunhar, a um só tempo, o momento de formação ou de colapso, a gênese ou o apocalipse. Esse drama vital repete-se em diferentes escalas, indo vertiginosamente da estrutura de um átomo ao rastro de uma nebulosa, ao advento de um buraco negro, ou ainda mais acima e além, quando a lágrima de uma divindade escorre no vazio do Cosmos.
Vigília II
Na segunda aparição, a paleta esbranquiça e os contrastes se atenuam. Formas verticais são veladas por uma névoa densa: um bosque fantasmagórico filtrando a luz de uma clareira distante, uma floresta astral rarefeita ou uma planície de prototaxites há centenas de milhões de anos. Há uma verticalidade que liga o chão ao céu sem nunca se fixar em algo nítido, apenas demarcando, com sutileza, a distância entre o solo e o que está acima dele.
A luz difunde-se em vez de brilhar, irradiando do centro em direção às bordas, que guardam um calor ocre suave. As velaturas aqui atingem uma transparência extrema, quase fosca, acumulando-se em estratos tão delicados que a profundidade que constroem parece ser de outra natureza — não espacial, mas temporal. As formas verticais — tênues e fugazes — persistem como espectros cuja configuração original foi sendo encoberta por sucessivos eventos. Desse modo, a imagem recua na mesma medida em que se projeta, num jogo interminável entre objeto e observador. O olho busca, mas não encontra ponto de apoio; a percepção vacila, em contínua e inescapável suspensão.
Vigília III
Por fim, desponta um corpo embrionário de estranha vitalidade. O verde — ácido e vibrante — irrompe a partir de uma pulsão energética que parece anteceder qualquer organismo discernível. Aqui a luz comporta-se de outro modo. Não tem origem localizada, não vem de um astro distante nem de uma abertura na mata: está distribuída pela superfície inteira, como se emanasse da própria tinta. É possível pensar na atividade elétrica da sopa primordial, na formação de um zigoto, na bioluminescência de um ser aquático ou em uma célula realizando fotossíntese. A imagem parece pertencer ao regime das visualizações digitais — renders de mundos microscópicos, simulações de uma biologia invisível ao olho humano — ou a uma figura luminosa no interior de um videogame.
As marcas gestuais são aqui mais vivas, menos submersas; a matéria parece menos estratificada e mais dinâmica, em movimento, em processo. O núcleo dourado pulsa e se expande, mobilizando tudo ao redor numa agitação constante. O evento que a tela encena é extático — um transe que enuncia o princípio fundamental de toda forma de vida: estar sempre em transmutação, sempre em vias de ser outra coisa.
Despedida
Embora o ponto de partida de Lucas Milano seja a ideia de paisagem, não encontraremos em suas pinturas qualquer lugar identificável. Não há a tentativa de retratar recortes mundanos ou de capturar momentos efêmeros ligados a um espaço específico. O que se apresenta é algo de outra natureza. Nas suas pinturas, a luz assume caráter construtivo: é o material a partir do qual o campo pictórico ganha consistência. Toda forma possível só pode resultar da luminosidade que emana. Cada tela é, portanto, uma revelação — um acontecimento que se realiza no instante da visão.
Nesse sentido, seria mais preciso associá-la a certas vertentes do abstracionismo espiritual e do expressionismo abstrato do que à tradição da pintura de paisagem. No entanto, é uma obra igualmente alimentada pela vivência digital e pela influência dos ambientes sintéticos, de modo que não poderia se filiar inteiramente a nenhuma dessas linhagens, atravessando-as para fazer uma costura singular entre o onírico e o orgânico, o místico e o cibernético.
A paisagem atinge, então, a sublimação: seus limites se dissolvem, o sólido cede ao gasoso e o exterior se converte em estado interno de contemplação. A tela funciona como dispositivo de proliferação, como um ambiente em que presenças se constituem e se mantêm sem fixação, como lampejos atávicos, como resíduos luminosos de um sonho ou como registros de um fenômeno paranormal. O que está posto na pintura escapa a um esforço objetivo de identificação e classificação, uma vez que só pode se realizar por meio da captação sensível, preservando-se no interior de quem vê.
Germano Dushá