Corpo em Bruma – Caroço
Corpo em bruma
Lucas Milano e Luiz Escañuela
Corpo e paisagem são temas abordados à exaustão na história da arte, ambos carregados de nuances temporais que continuam a seduzir artistas. As paredes de uma gruta têm suas texturas bem definidas, mas basta uma gota de orvalho para que seu contorno se transforme; o corpo possui uma configuração fisiológica precisa, mas pode vibrar em outro matiz com uma leve mudança de temperatura. É nesse espaço sutil de transformação que se insere a exposição conjunta de Luiz Escañuela e Lucas Milano, que utilizam a pintura para capturar essa matéria instável do mundo, transpondo-a da bidimensionalidade para um campo suspenso. Nada aqui se reduz a um esquema simples de oposições. A relação entre as obras é antes um jogo de escalas e intensidades. Transitar o olhar entre uma pintura e outra é como adentrar em grutas que se formam nesse território indeterminado e encontrar, no seu interior, camadas e vincos materiais que sustentam atmosferas densas.
As paisagens de Lucas Milano pairam entre o reconhecível e o intangível. A bruma não é só um efeito pictórico, mas uma condição de existência. Suas imagens nunca se fixam completamente, atravessadas por um tempo que dilata, apaga e refaz continuamente suas formas. Há nelas uma suspensão, um respiro prolongado, como se o mundo pausasse para dar espaço a uma “imensidão íntima”, onde a espacialidade deixa de ser exclusivamente externa e se projeta no observador. As superfícies oscilam, e a fatura da pintura flutua como partículas prestes a mudar de estado. É pelo olhar que elas tomam forma, delineadas difusamente pelo subconsciente, pela memória e pela intenção de quem observa.
À medida que essa neblina se dissipa, é a matéria que se impõe nas obras de Luiz Escañuela. Suas superfícies tencionam, repuxam, dobram-se sobre si mesmas, deixando ver torções, veios e marcas que oscilam entre o corpo e o território. Nelas reside algo mineral, geológico, como se o corpo fosse terra e a terra carregasse em si um organismo latente. Pele e rocha se confundem em camadas que acumulam extratos temporais, cicatrizes que narram suas próprias histórias. Se Milano pede distância para que a imagem se forme lentamente no olhar, Escañuela propõe outra aproximação, na qual fissuras e relevos se tornam perceptíveis na medida em que o corpo se aproxima da superfície.
O encontro das obras no espaço expositivo sugere um ritmo orgânico de expansão e contração, como o movimento contínuo de um pulmão. Inspira e expira, abre e comprime. Nesse entre-espaço, forma-se um tecido capaz de dissolver as separações convencionais entre sujeito e objeto.
A tentativa aqui é pensar a pintura fora das lógicas habituais de oposição ou hierarquia, em um campo onde os elementos são estados transitórios de uma mesma substância. Figura e fundo, imagem e matéria, aquele que observa e o que é observado permanecem em trânsito, fundindo-se continuamente. Estar diante dessas pinturas é habitar esse intervalo — entre vapor e rocha, entre pele e neblina, entre aquilo que se dissolve e aquilo que persiste.
– Jessica Factor